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Inflação se deteriora, mas juro futuro cai

A deterioração da expectativa de IPCA para este ano do Boletim Focus não serviu de inspiração para o mercado futuro de juros da BM&F revisar para cima suas projeções de CDI. Enquanto a taxa para a virada do ano recuou levemente de 10,21% para 10,22%, os juros para o fim do primeiro ano do próximo governo cederam de 11,47% para 11,41%. Os agentes não acreditam que a piora na projeção de inflação para este ano - de 4,62% para 4,78% - irá fazer com que o Copom antecipe de abril para março o prometido início do aperto monetário. Até porque as projeções do Focus são contraditórias entre si. Enquanto a estimativa de IPCA não para de subir (nas três últimas semanas, passou de 4,50% para 4,62% e agora para 4,78%), a projeção de Selic para o fim do ano permanece congelada em 11,25%. Comparando-se uma projeção com a outra, dá para concluir que a Selic teria de subir para além desse 11,25% para trazer de volta o IPCA para a meta de 4,50%.

Se as cem instituições pesquisadas pelo Focus sustentam a taxa básica em 11,25%, mas, ao mesmo tempo, elevam a inflação para 4,78% é porque acreditam que o Banco Central será leniente monetariamente no seu combate à inflação. Ao invés de jogar a Selic para a altura que seria eficaz no controle do IPCA, o BC usaria, sem sucesso, compulsórios bancários e âncora cambial. Por trás da contradição, poderia estar a desconfiança em relação à vontade do BC em fazer tudo o que fosse necessário para cumprir o centro da meta. Se houvesse tal credibilidade, a expectativa de IPCA não subiria. Continuaria em 4,50% e a projeção que iria subir seria a de taxa Selic de fim de período. O paradoxo pode ser entendido não como falta de confiança no BC, mas como uma forma de pressão para que apresse o início do ciclo de alta, sob a justificativa de que, quanto mais cedo começar o arrocho, mais cedo poderá terminá-lo e com um movimento total de alta menos acentuado do que se começasse mais tarde.

O ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore, diz que a autoridade não pode arriscar perder a guerra do controle das expectativas inflacionárias. Isso pode acontecer se for obrigado a elevar a Selic para além da taxa neutra. A reação do BC à crise internacional foi a de colocar a taxa de juros abaixo da taxa neutra. Com isto incentivou uma rápida recuperação da economia. Hoje a recuperação em marcha está muito forte, reduzindo velozmente as margens de capacidade não utilizadas na economia. "O problema enfrentado pelo BC é evitar que a taxa de juros tenha que ser temporariamente elevada acima da taxa neutra", diz Pastore em relatório de sua consultoria. "Quanto antes este ciclo se iniciar, maior será a contribuição favorável do controle das expectativas na busca do novo nível da taxa de juros", diz.

Na visão dos economistas do mercado, se o BC conseguir demonstrar, por meio de uma alta do juro corrente, com eficácia a sua intenção de derrubar logo as pressões inflacionárias irá induzir uma baixa imediata do juro futuro - pois este já embutirá a expectativa de sucesso anti-inflação da política monetária. É por essa razão que, um aperto entendido como eficaz e competente, sera interpretado como previamente vitorioso. Com isso, as taxas de longo prazo, balizadoras do custo dos empréstimos, recuarão.

O sentimento de que a elevação da Selic será tanto maior quando mais o BC retardar o início do aumento não contamina as estimativas de juro básico do Focus. Mas se o Copom não fizer o movimento de alta em março ou abril, deixando para ajustar a taxa na reunião de junho, a projeção irá subir dos atuais 11,25%. E um aperto severo será de difícil aplicação em ano de eleições presidenciais que prometem ser incendiárias. E também não contagia o mercado futuro de juros por duas razões. A primeira é que a curva já está excessivamente "premiada", embutindo um arrocho monetário bem maior do que o BC se mostra disposto a fazer. A segunda é que a cena internacional delicada não recomenda pisar muito no freio doméstico. De novo, os juros longos foram os que mais caíram ontem. A taxa-spot cedeu 0,09% para o fim do ano, 0,43% para o final de 2011 e 0,93% para 2012. A piora na inflação corrente já está "no preço" da curva futura e não chega a afetar as projeções. Por isso, foi vista com certo enfado a alta de 1,33% apurada pelo IPC-S na quadrissemana encerrada em 7 de fevereiro. A taxa foi mais alta que a anterior (1,29%) e a mediana das expectativas (1,28%).

No mercado de câmbio, o dólar caminhou ontem na via oposta à da valorização das commodities. E fechou em baixa de 0,89%, cotado a R$ 1,8740. A conjuntura de crise na Europa atenuou-se permitindo diminuição na aversão global a risco. O risco-Brasil cedeu 1,23%, para 240 pontos-base.

Fonte: Valor Econômico